domingo, 17 de maio de 2009
à beira do mar aberto
"a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem sempre sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde não sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminado por nossa falsa pureza, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que teu corpo rejeita, bebendo teu mágico veneno porco que me ilumina e me anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que não sei se é o grande conhecimento de nós ou o imenso engano de ti e de mim" caio f.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
o viço da pele
tenho pensado muito na minha geração, e mais de perto, as pessoas que viveram essa parte da vida comigo. pra onde o tempo levou aquelas pessoas de anos atrás? que rumo temos dado às nossas vidas que, a esta altura, se tornam basicamente suportaveis? penso essas coisas quando vejo no espelho, os meus olhos já fundos, minha cor aparentando doença e as marcas que já despontam invasivas. não vejo mais o viço natural das pessoas de minha idade e muito menos o bom humor e o relativismo característicos de minha época. tudo é dor e derepente o melhor programa pra um final de semana é um bom tinto seco, som ambiente e conversa com outro alguém que sente a mesma coisa. onde estamos agora? vejo como estamos ficando feios, a palavra é esta, feios. talvez as drogas, as obrigações que escolhemos; as drogas no meio das obrigações. é bem verdade que nossos sorrisos agora carregam um pouco de dor, e perdemos a leveza. dor de tanto brigar com o mundo pra tentar, apenas tentar, ser um pouquinho feliz, não muito feliz porque, todos sabem, felicidade demais é loucura é insanidade. um pouquinho. e agora, por hábito, fazemos de nossas dores o nosso prazer. que alegria desesperada é essa que buscamos nos becos sujos, esfregando nossa cara na lama, nossa alma se esvaindo pelo ralo? vejo como alguns conservam ainda a jovialidade, mesmo levando uma vida sem tempo para si, mesmo correndo atrás de coisas importantes para si. coincidentemente não são estes os mais próximos a mim. alguns evoluiram para a direita, mas os meus, estes foram para a esquerda. e "não há volta para quem escolhe o lado esquerdo". lamento, lamento. éramos todos crianças ao nosso modo, descobrindo as coisas, era um jogo. não sabíamos o que encontraríamos mas escolhemos caminhos quem sabe mais convenientes para o momento. eu não sei, não sei. não quero chegar a este mérito. a minha vida tem se tornado uma sequência de coisas que não deram certo, mas e para os outros? é bem verdade que me diverti com as coisas que ia conseguindo pela metade, isso porque fui condicionada a ver o lado bom das coisas que iam dando errado. uma maneira nem tão ruim de se viver. isso pra não falar dos amores. tudo assim, vês? pela metade, mediocre, mais ou menos. se penso nisso é porque penso no que virá e me preocupo. por mim faço pequenas coisas tentando dar forma e sentido ao meu caminho; mas pelos outros, os outros feios como eu, intoxicados pelo dia a dia como eu, perdidos em becos como eu, não posso. o fato é que aceleramos nosso envelhecimento. a nicotina tem amarelado nossos dentes e desenhado linhas em nosso rosto. nossas noites mal dormidas aprofundam cada vez mais nossos olhos. e nosso corpo se entrevando, se entrevando. não serei hipócrita; gosto disto e fiz uma escolha. mas o "e se" é uma expressão de mal resolvidos, e assumo: olho para trás e pergunto "e se?". não há resposta. é claro que coisas haviam de mudar. mas em um espaço curto de tempo, envelhecemos mais do que o esperado. guardamos nossa juventude em potes, esperando para abri-los quando o mundo se esquecer de nós.
domingo, 3 de maio de 2009
a carta do biel
"Eles me disseram tanta asneira, disseram só besteira
Feito todo mundo diz.
Eles me disseram que a coleira e um prato de ração
Era tudo o que um cão sempre quis
Eles me trouxeram a ratoeira com um queijo de primeira
Que me, que me pegou pelo nariz
Me deram uma gaiola como casa, amarraram minhas asas
E disseram para eu ser feliz
Mas como eu posso ser feliz num poleiro?
Como eu posso ser feliz sem pular ?
Mas como eu posso ser feliz num viveiro,
Se ninguém pode ser feliz sem voar?
Ah, segurei o meu pranto para transformar em canto
E para meu espanto minha voz desfez os nós
Que me apertavam tanto
E já sem a corda no pescoço, sem as grades na janela
E sem o peso das algemas na mão
Eu encontrei a chave dessa cela
Devorei o meu problema e engoli a solução
Ah, se todo o mundo pudesse saber
Como é fácil viver fora dessa prisão
E descobrisse que a tristeza tem fim
E a felicidade pode ser simples como um aperto de mão
Entendeu?
É esse o vírus que eu sugiro que você contraia
Na procura pela cura da loucura,
Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia."
Feito todo mundo diz.
Eles me disseram que a coleira e um prato de ração
Era tudo o que um cão sempre quis
Eles me trouxeram a ratoeira com um queijo de primeira
Que me, que me pegou pelo nariz
Me deram uma gaiola como casa, amarraram minhas asas
E disseram para eu ser feliz
Mas como eu posso ser feliz num poleiro?
Como eu posso ser feliz sem pular ?
Mas como eu posso ser feliz num viveiro,
Se ninguém pode ser feliz sem voar?
Ah, segurei o meu pranto para transformar em canto
E para meu espanto minha voz desfez os nós
Que me apertavam tanto
E já sem a corda no pescoço, sem as grades na janela
E sem o peso das algemas na mão
Eu encontrei a chave dessa cela
Devorei o meu problema e engoli a solução
Ah, se todo o mundo pudesse saber
Como é fácil viver fora dessa prisão
E descobrisse que a tristeza tem fim
E a felicidade pode ser simples como um aperto de mão
Entendeu?
É esse o vírus que eu sugiro que você contraia
Na procura pela cura da loucura,
Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia."
psicologofobia
vou falar sobre o quê se não for dela? sendo muito sincera: ainda a amo. ela faz parte de todos os meus devaneios, apesar de que nos sonhos, começa a desaparecer,o que é muito bom; ou apareça de outra forma, vai saber. nunca precisei me dar ao trabalho de entender meus sonhos, porque todos foram sempre tão diretos. e se ela estiver lá de outra forma, não a reconhecerei por que já desisti da coisa de entendimento da cabeça; e mais, tenho pavor de psicólogos, eles destróem a minha vida. éramos sempre quem não somos em meus sonhos. mas era ela lá. era ela também me fezendo sentir aquele frio na barriga ontem. e também era ela me fazendo sorrir no meio da reunião, semana passada. hoje, ela só está fazendo tudo o que sempre fez, sendo o que sempre foi. eu é que não posso mais ceder aos meus impulsos. e é simples demais tudo isso: se não posso tê-la, então tenho que esquecê-la. simples. nesse cenário, seus defeitos tem me caído melhor. é complicado isso, porque no fundo não enxergo nada daquilo, mas tenho que expurgá-la de mim de alguma maneira. essas meninas encrustam na gente feito mancha de tinta na camisa. não, é claro que elas não tem culpa. elas só estão lá fazendo o papel delas, sendo lindas e fudendo as nossas vidas, coisa que a gente aprecia em demasiado, não é verdade?
Alguém entende isso? Alguém que não seja psicólogo, e que não queira destruir minha vida com uma teoria? Alguém vê o que tá acontecendo aqui? Eu vi, mas como se trata de mim, tenho até vergonha de dizer.
Existe uma diferença afinal.
Sim, ainda a amo. Não escondo. Mas agora, não me darei mais ao luxo de querê-la.
até que todas essas palavras sumam, até que a página fique branca, cada vez menor... cada vez menos palavras te darei, cada vez menos. e você? já foi.
Alguém entende isso? Alguém que não seja psicólogo, e que não queira destruir minha vida com uma teoria? Alguém vê o que tá acontecendo aqui? Eu vi, mas como se trata de mim, tenho até vergonha de dizer.
Existe uma diferença afinal.
Sim, ainda a amo. Não escondo. Mas agora, não me darei mais ao luxo de querê-la.
até que todas essas palavras sumam, até que a página fique branca, cada vez menor... cada vez menos palavras te darei, cada vez menos. e você? já foi.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
pé sujo?
eu venho aqui esta noite falar em nome de toda a massa carioca, quiçá brasileira, que fez dos bares e botecos da vida sua segunda casa. não, não bebi. salve os pés sujos, salve as mesinhas de bar, salve nossas cervejas, meu deus, salve. não leve a mal o que vou dizer, mas é que se trata de uma questão de gosto: odeio baladinha de playboy. ai, que saco, que saco. fila pra entrar, fila pra beber, fila pra mijar, fila pra pagar, fila pra sair. que merda! favor! não me chamem para este "tipo" de baladinha de gente bonita e fina. eu quero sim esticar as pernas na cadeira, quero beber minha cerveja em copo americano, dançar quando tenho vontade, quero minha gente não exatamente bonita nem feia, um pouco estranha, mas super interessante, quero tudo isso, qualquer barzinho serve. que seja a bohemia, que seja.
terça-feira, 7 de abril de 2009
sobre o tempo no rio I
e agora, agora eu me sinto num estado de calma, muita calma no ar. é como ver que uma tempestade está prestes a desabar, e muito serena, esquento a água, faço um chá, sento na varanda e acendo um cigarro. sem sofrimentos, sem expectativas esquizofrênicas parafuseando o cérebro, sem culpa; apenas um espaço preenchido de amor, e dos puros. um amor assim destilado, guardado em barril de carvalho enquanto apura o seu sabor.ouvi dizer que a paixão só traz sofrimento, os budistas dizem isso? que a fonte da dor é o desejo. e não sei se as coisas funcionam bem assim, quer dizer, foi shakespeare que disse? "mostre-me um homem que não seja escravo de suas paixões", foi ele? foda-se. eu sempre achei que a paixão é o que movimenta o homem, é ela que faz as coisas acontecerem, mas peraí cara-pálida, aonde as tuas paixões tem te levado? quilômetros e mais quilômetros depois, ainda sinto o quanto foi importante cada centímetro percorrido por causa da paixão, mas quer dizer, é fatal. o que eu tô tentando dizer tão imbecilmente aqui é que troquei a paixão pelo amor. e me sinto imensamente recompensada. acho que atingi um grau de amor que não espera respostas, que é completo e harmônico, e vive porque é um organismo perfeito e auto-sustentável.ah, sim. chove muito no rio agora. e sinto tanto sono, mas não tomei nada, juro.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
meu querido,
onde estará agora, o [des]prezado companheiro? será que destes lados do trópico o calor também o incomoda? será que, sozinho, ele também se vê perdido com tanto espaço ao redor? e ainda sente raiva? uma raiva que às vezes se enleva e vira ciúme; um ciúme já tão démodé. às vezes um não prestar de contas consigo mesmo e uma rebeldia que, sabemos, é pedido de atenção em vermelho, uma revolta como forma de dizer "me ajuda".
me sinto cega para todo o resto, vou pisando em falso em territórios (em falsos territórios) desconhecidos e me distraio com os meus problemas. mas me sinto bem, e só ele sabe de que jeito.
sei que nossas faltas foram distintas, o que não nos redime de maneira alguma, ressalto. mas estamos aqui, pagando nossos fardos, e eu não poderia dizer quem sofre mais agora. quem sente mais saudade. quem saiu mais ferido deste choque. e nem importa, porque cada um deve agora tentar recuperar toda a energia que investimos "nisso", proporcionalmente. acho que compreendo mais. também fomos os mesmos amantes doentes, os mesmos carentes desesperados, só representamos de maneira diferente: ele, com agressão. eu, com obsessão. e muito mais dessas palavrinhas de gente doente.
a verdade é que éramos iguais, eu e ele. éramos, os dois, a mesma pessoa, agora, descrentes do amor. dois coelhos mortos pela mesma pedra. e não era exatamente o que nos ligava que nos fazia iguais, porque essa linha nos transpassou em momentos distintos, de início. em outros, nos costurou na mesma trama. pelo contrário, o que mais nos aproximava era também o que nos distanciava. afinal, sabemos. dois corpos não ocupam o mesmo lugar. éramos dois campos de força, o que logicamente, nos repeliu para longe um do outro. o lugar, este ficou vazio, quem sabe agora ocupado por alguém que ia passando ali e resolveu ficar. mas não o conheço, nem tomo partido. apenas vejo como acabamos indo, mesmo por caminhos diferentes, ao fundo deste poço, que não é fim nem fundo, mas poço raso onde a gente fica por que tem que ficar. por que temos que sentir esta ressaca de amor que às vezes vira festa às cegas, encontro no escuro, pura sacanagem vazia de sentimento, mas que, no final da noite, num final de semana onde provavelmente estaríamos juntos - nós - acaba preenchendo um espaço, aquele espaço, com conversas banais, bebidas quentes e orgasmos fingidos. o que não é, de todo, ruim. não mesmo.
o que havia no centro, entre nós - órbitas -, era a luz, era o sol.
o que não sabíamos, meu caro, é que, além de tentar ocupar o mesmo espaço, também éramos intrusos. olha, eu não te conheço. nunca te conheci por inteiro, embora tivesse minhas idéias infundadas sobre quem seria você. fomos inimigos, amantes, desconhecidos e agora fazemos parte de um mesmo levante. por mais que agora não mais te importes a minha presença e que minha vida para você não passe de uma folha amassada, e que talvez isso até seja recíproco, acredite em mim: não passamos dos mesmos amantes falidos, não importa de que maneira, e compartilhamos esta grande fossa dos corações partidos, cansados e fracassados, aonde há pesar, e que apesar de tudo isso, ainda nos sentimos extasiados pelo que virá.
timidamente, devagar.
me sinto cega para todo o resto, vou pisando em falso em territórios (em falsos territórios) desconhecidos e me distraio com os meus problemas. mas me sinto bem, e só ele sabe de que jeito.
sei que nossas faltas foram distintas, o que não nos redime de maneira alguma, ressalto. mas estamos aqui, pagando nossos fardos, e eu não poderia dizer quem sofre mais agora. quem sente mais saudade. quem saiu mais ferido deste choque. e nem importa, porque cada um deve agora tentar recuperar toda a energia que investimos "nisso", proporcionalmente. acho que compreendo mais. também fomos os mesmos amantes doentes, os mesmos carentes desesperados, só representamos de maneira diferente: ele, com agressão. eu, com obsessão. e muito mais dessas palavrinhas de gente doente.
a verdade é que éramos iguais, eu e ele. éramos, os dois, a mesma pessoa, agora, descrentes do amor. dois coelhos mortos pela mesma pedra. e não era exatamente o que nos ligava que nos fazia iguais, porque essa linha nos transpassou em momentos distintos, de início. em outros, nos costurou na mesma trama. pelo contrário, o que mais nos aproximava era também o que nos distanciava. afinal, sabemos. dois corpos não ocupam o mesmo lugar. éramos dois campos de força, o que logicamente, nos repeliu para longe um do outro. o lugar, este ficou vazio, quem sabe agora ocupado por alguém que ia passando ali e resolveu ficar. mas não o conheço, nem tomo partido. apenas vejo como acabamos indo, mesmo por caminhos diferentes, ao fundo deste poço, que não é fim nem fundo, mas poço raso onde a gente fica por que tem que ficar. por que temos que sentir esta ressaca de amor que às vezes vira festa às cegas, encontro no escuro, pura sacanagem vazia de sentimento, mas que, no final da noite, num final de semana onde provavelmente estaríamos juntos - nós - acaba preenchendo um espaço, aquele espaço, com conversas banais, bebidas quentes e orgasmos fingidos. o que não é, de todo, ruim. não mesmo.
o que havia no centro, entre nós - órbitas -, era a luz, era o sol.
o que não sabíamos, meu caro, é que, além de tentar ocupar o mesmo espaço, também éramos intrusos. olha, eu não te conheço. nunca te conheci por inteiro, embora tivesse minhas idéias infundadas sobre quem seria você. fomos inimigos, amantes, desconhecidos e agora fazemos parte de um mesmo levante. por mais que agora não mais te importes a minha presença e que minha vida para você não passe de uma folha amassada, e que talvez isso até seja recíproco, acredite em mim: não passamos dos mesmos amantes falidos, não importa de que maneira, e compartilhamos esta grande fossa dos corações partidos, cansados e fracassados, aonde há pesar, e que apesar de tudo isso, ainda nos sentimos extasiados pelo que virá.
timidamente, devagar.
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