terça-feira, 24 de agosto de 2010

Poema da Desintoxicação


Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.
Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.
Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.
Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.

João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 27 de julho de 2010

entardecer-te

a outra ficou ali meio sem ter o que fazer, onde colocar as mãos, onde ir, justamente o tempo de se pensar em um resgate, pensar estratégias, meios e maneiras. a mente estática na tentativa de trazê-la de volta e depois a apatia do que não havia mais jeito, nada para ser feito. era tarde e todo segundo escorria, o vento provocando as árvores fortes e bem estruturadas do campo, tentando mudar todos aqueles rumos insensatos que se seguiam pelas estradas do país. tudo entardecia e parecia arranhar. foi vagar pelo lugar onde antes podia encontrá-la a qualquer momento e embora a mente ainda colocasse os olhos a procura daquele rosto, este já não estava mais lá, apenas os incontáveis desencontros que os olhos da outra acharam naquele espaço já vazio e triste, só o cheiro de bebida velha e fim de festa. quis sair dali rápido, ir beber do veneno de sua rotina como se fosse importante, fingir que nada havia acontecido e que nunca se enamorara, fugir pro início de tudo e começar outra vez. teria perguntado seu nome naquela tarde se por algum acaso soubesse da falta? por um segundo cogitou e acreditou em máquinas do tempo. sim, perguntaria. porque havia de ser e não tinha jeito, mas agora doía. também o corpo não sabia mais nem como respirar, do que a falta constante de ar do lugar a lembrava sempre. mesmo assim respirava pouco, fraco e baixo, como que mantendo apenas uma subvida, era só atividade cerebral constante tentando resolver enigmas do tempo e do espaço. depois de tantos encontros que, por fato irremediável da vida, são seguidos de desencontros, e destes tendo sobrevivido, teve medo e sentiu vontade de sair correndo pela estrada, dizer-lhe da insanidade que era voltar pra casa, que o mundo já ia acabar e que precisava ficar, sem motivo, sem porque, só ficar ao seu lado em silêncio, como num dia banal, mas não. haviam todas aquelas coisas que cada pessoa precisa fazer, a casa, algo parecido com uma família e também aquilo que chamam trabalho. e haviam pessoas! várias delas, sem as quais não se vive. porque, diferente da outra, ela sabia perfeitamente o que devia fazer agora. o que não importava mais, os motivos. ouviu a sua voz dulcíssima durante todo o dia, saindo da boca de outros, dizendo coisas que não lhe cabiam, a outra ficou ainda mais perturbada. o que mais sua mente seria capaz de produzir por conta da falta? prefiriu acreditar no que existia e também voltou pra casa.

terça-feira, 13 de julho de 2010

sobre ir

assim que a loucura morrer, me vou
assim que meu tempo sincronizar em mim e
ritmar o de dentro e o de fora, me vou
não vou longe, porém irei
levarei meus livros em uma estante
que carregarei nas costas
nos bolsos, mil coisas
são sementes, trocos dados e usados
sobras frias de comida que não ingeri
mãos sempre vazias, o que por elas passar
ou será jogado fora ou será
rapidamente engolido
o que importa é que vou e pelo redor,
pelas beiras, nos cantos e por aí
pessoas levarei poucas; gatos,
só os que me levarem consigo.
assim que ir, só o vento ocupará o espaço
antes gasto comigo
não precisarei mais de espaços próprios,
ocuparei a todos clandestinamente e
sorrateira irei para sempre embora
sem ninguém notar.
só existo no meu tempo sem espaço e
ninguém além de mim sabe
o compasso, por isso me vou...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

sala de esperar

me encontra lá na tua sala de estar
com teus olhos perfeitos, tristes e conturbados
onde eu desejo me afundar eterno
pra você me salvar e ser minha sorte
minha ilha perdida, minha armadilha,
teus olhos fugindo, se escondendo no escuro
na profundeza abissal de teus pensamentos
onde eu me jogo e tento, aflita
me prender nas tuas coisas, tuas histórias
que me contas em detalhes tantos
mas de todos, só vejo teus olhos
portanto, me encontra e me olha
eu vou estar
cantarolando tua chegada
sentada na minha sala de esperar

domingo, 21 de março de 2010

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eu ando apaixonado por cachorros e
bichas

porque eles sabem que amar é abanar o rabo, lamber e
dar a pata

terça-feira, 16 de março de 2010

extravagante demais, ácido demais

faço o tempo correr mais rápido desde então. engulo todas as horas voraz, cada parte de segundo descendo pela minha garganta, áspera. deixo para sentir melhor e maior o tempo para quando eu puder me dar toda para o seu amor, que exige horas longas e pesadas, intensas e constantes de conhecimento das tuas miudezas; porque, por absurdo que seja, ainda não pude te deixar. por enquanto, sou só e aguardo chegar o inverno de meus dias, quando folhas secas possam enfim cair, deixando sair, tosco ainda, o novo. depois os ipês florindo, dourados reinando sobre nossas cabeças, convocando os amantes às ruas; tudo feliz, ao menos em tese.
tudo se divide em semanas, tão rápido me passa. segunda-feira é dia de me vestir de Gente, do que quase me convenço durante a semana. mas, para minha sorte e perdição, no primeiro segundo da sexta-feira já me vem o tinhoso, me jogando em qualquer alucinação barata e acabo eu tendo a certeza que a verdade do mundo está nas ruas, e beijo fundo essas bocas que encontro, na tentativa de provar que não preciso de você, que outros me amam mais e melhor e que já me esqueci como era teu beijo, que nada vale mais para minha vida o veneno fraco que colocasse em mim... frustrada. porque era esse teu jogo, que eu me embriagasse lento com este veneno agridoce e logo depois precisasse de mais, de doses maiores e mais concentradas.
e falo do que passou e do que você me deixou; vícios irrecuperáveis, vida e morte de toda e qualquer esperança inútil, um princípio de enfizema pulmonar, infarto do miocárdio e mais o quê? o grande vazio nos olhos agora de vidro, areado e fosco. é claro que me precipitei, que enxerguei pactos no escuro, me meti toda na tua vida sem licença porque tudo é meu, mas você não era minha, só você e por que exatamente não poderia, que a quis. e no amor, eu tomo posse. o verbo é ter, não vou mentir. mas nada existia e você me vendava os olhos como quem quer fazer doer menos, segurava minha mão conduzindo uma criança para a sala de vacina e me olhava triste, meu deus você me olhava já sabendo que ia doer e que nada poderia fazer. e que viriam outras dores, quer dizer, você sabia que nada poderia fazer pelo meu amor, que era extravagante demais para você se vestir dele, talvez ácido demais para teu paladar discreto, e que seria necessário me machucar, de vez em quando. você me achava forte.
tudo passou, já não te vejo mais e não sei de ti. mas ainda penso em deixar os cabelos crescerem para você e penso ainda em teus caprichos de menina, que talvez seja uma questão de tempo para eu enfim atendê-los mais uma vez. o que você vai fazer com tua vida? a minha ainda anda presa a você como a vidas passadas, teu semblante surgindo ameaçador e incoveniente por entre as memórias, no meio do dia, do trabalho e mais constante, do sono. só o peso do que já vivemos alguma vez, certo lugar, mas que ainda não passou, prendendo meus passos no chão como grandes placas de concreto. de certa forma, abandonamos a obra pela metade porque passamos a não gostar mais da idéia inicial, deixamos aquele pedaço em branco mesmo, esquece tudo isso, não é arte, não é amor.
faça o que quiser, me prove que eu estava errada, me puna e me deixe ir. se perca com os teus amores pueris, que como eu, também são insensatos e te consomem. assuma as tuas dores e faça as tuas escolhas e as tuas perdas. mas a mim, que carrego o místico, esqueça simplesmente. não é preciso se preocupar com nada. nossos sonhos à noite guiarão nossos passos durante o dia. e assim, no auge dos nossos vinte-e-poucos-anos, mas já carregadas de nostalgias, correremos sobre o mundo pisando e esmigalhando toda a antiga verdade dos tolos que simplesmente vagam bovinamente, pastando e digerindo merda. nós, em uma tarde vazia de janeiro levemente ensolarada, em que nada mais houver para correr, talvez nos encontremos sem combinarmos, e com as mãos já marcadas - o tempo - exterminaremos todo aquele branco deixado para trás e criaremos, juntas, alguma coisa que alguém muito simples possa olhar e chamar, enfim, de bela.

sábado, 13 de março de 2010

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não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado