segunda-feira, 8 de novembro de 2010

des-espero espero

por ser bicho, irracional, arredio

sem motivos prevejo meu exílio



por não saber lidar com paredes

e deixar sempre as portas abertas

planejo um fuga discreta humilde

como quem pula pela janela



assim sem acordar a família, sem

ao menos dar um beijo na sobrinha

indo embora assim no vento

embora como que despercebida



apenas o gato negro a me fitar ciente

porque de fugas ele entende

e na noite a passar uma febre ardente

por estar tudo agora tão diferente

diferente sem você
diferente sem porquê
diferente só por ser
por ser vida à mercê

não te levo
mas espero
que saia
desse desespero

te busco
prometo

voltar e te despertar num beijo
mas só quando você acordar
mas só quando você acordar

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

retrato do desconhecido

Ele tinha uns ombros estreitos, e a sua voz era tímida,
Voz de um homem perdido no mundo,
Voz de quem foi abandonado pelas esperanças,
Voz que não manda nunca,
Voz que não pergunta,
Voz que não chama,
Voz de obediência e de resposta,
Voz de queixa, nascida das amarguras íntimas,
Dos sonhos desfeitos e das pobrezas escondidas.

Há vozes que aclaram o ser,
Macias ou ásperas, vozes de paixão e de domínio,
Vozes de sonho, de maldição e de doçura.
Os ombros eram estreitos,
Ombros humildes que não conhecem as horas de fogo do
amor inconfundível,

Ombros de quem não sabe caminhar,
Ombros de quem não desdenha nem luta,
Ombros de pobre, de quem se esconde,
Ombros tristes como os cabelos de uma criança morta,
Ombros sem sol, sem força, ombros tímidos,
De quem teme a estrada e o destino
De quem não triunfará na luta inútil do mundo:
Ombros nascidos para o descanso das tábuas de um caixão,
Ombros de quem é sempre um Desconhecido,
De quem não tem casa, nem Natal, nem festas;
Ombros de reza de condenado,
E de quem ama, na tristeza, a sombra das madrugadas;
Ombros cuja contemplação provoca as últimas lágrimas.

Os seus pés e as suas mãos acompanhavam os ombros
num mesmo ritmo.
Mãos sem luz, mãos que levam à boca o alimento
sem substância,
Mãos acostumadas aos trabalhos indolentes,
Mãos sem alegria e sem o martírio do trabalho.
Mãos que nunca afagaram uma criança,
Mãos que nunca semearam,
Mãos que não colheram uma flor.
Os pés, iguais às mãos
— Pés sem energia e sem direção,
Pés de indeciso, pés que procuram as sombras e o esquecimento,
Pés que não brincaram, pés que não correram.

No entanto os olhos eram olhos diferentes.
Não direi, não terei a delicadeza precisa na expressão
para traduzir o seu olhar.
Não saberei dizer da doçura e da infância daqueles olhos,
Em que havia hinos matinais e uma inocência, uma tranqüilidade,
um repouso de mãos maternas.

Não poderei descrever aquele olhar,
Em que a Poesia estava dormindo,
Em que a inocência se confundia com a santidade.
Não poderei dizer a música daquele olhar que me surpreendeu um dia,

Que se abriram diante de mim como um abrigo,
E que me trouxe de repente os dias mortos,
Em que me descobri como outrora,
Livre e limpo, como no princípio do mundo,
Envolvido na suavidade dos primeiros balanços,
Sentindo o perfume e o canto das horas primeiras!
Não direi do seu olhar!

Não direi do seu olhar!
Não direi da sua expressão de repouso!
Ainda não sei se era dele esse olhar,
Ou se nasceu de mim mesmo, num rápido instante de paz
e de libertação!


Augusto Frederico Schimdt

(1906-1965)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Poema da Desintoxicação


Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.
Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.
Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.
Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.

João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 27 de julho de 2010

entardecer-te

a outra ficou ali meio sem ter o que fazer, onde colocar as mãos, onde ir, justamente o tempo de se pensar em um resgate, pensar estratégias, meios e maneiras. a mente estática na tentativa de trazê-la de volta e depois a apatia do que não havia mais jeito, nada para ser feito. era tarde e todo segundo escorria, o vento provocando as árvores fortes e bem estruturadas do campo, tentando mudar todos aqueles rumos insensatos que se seguiam pelas estradas do país. tudo entardecia e parecia arranhar. foi vagar pelo lugar onde antes podia encontrá-la a qualquer momento e embora a mente ainda colocasse os olhos a procura daquele rosto, este já não estava mais lá, apenas os incontáveis desencontros que os olhos da outra acharam naquele espaço já vazio e triste, só o cheiro de bebida velha e fim de festa. quis sair dali rápido, ir beber do veneno de sua rotina como se fosse importante, fingir que nada havia acontecido e que nunca se enamorara, fugir pro início de tudo e começar outra vez. teria perguntado seu nome naquela tarde se por algum acaso soubesse da falta? por um segundo cogitou e acreditou em máquinas do tempo. sim, perguntaria. porque havia de ser e não tinha jeito, mas agora doía. também o corpo não sabia mais nem como respirar, do que a falta constante de ar do lugar a lembrava sempre. mesmo assim respirava pouco, fraco e baixo, como que mantendo apenas uma subvida, era só atividade cerebral constante tentando resolver enigmas do tempo e do espaço. depois de tantos encontros que, por fato irremediável da vida, são seguidos de desencontros, e destes tendo sobrevivido, teve medo e sentiu vontade de sair correndo pela estrada, dizer-lhe da insanidade que era voltar pra casa, que o mundo já ia acabar e que precisava ficar, sem motivo, sem porque, só ficar ao seu lado em silêncio, como num dia banal, mas não. haviam todas aquelas coisas que cada pessoa precisa fazer, a casa, algo parecido com uma família e também aquilo que chamam trabalho. e haviam pessoas! várias delas, sem as quais não se vive. porque, diferente da outra, ela sabia perfeitamente o que devia fazer agora. o que não importava mais, os motivos. ouviu a sua voz dulcíssima durante todo o dia, saindo da boca de outros, dizendo coisas que não lhe cabiam, a outra ficou ainda mais perturbada. o que mais sua mente seria capaz de produzir por conta da falta? prefiriu acreditar no que existia e também voltou pra casa.

terça-feira, 13 de julho de 2010

sobre ir

assim que a loucura morrer, me vou
assim que meu tempo sincronizar em mim e
ritmar o de dentro e o de fora, me vou
não vou longe, porém irei
levarei meus livros em uma estante
que carregarei nas costas
nos bolsos, mil coisas
são sementes, trocos dados e usados
sobras frias de comida que não ingeri
mãos sempre vazias, o que por elas passar
ou será jogado fora ou será
rapidamente engolido
o que importa é que vou e pelo redor,
pelas beiras, nos cantos e por aí
pessoas levarei poucas; gatos,
só os que me levarem consigo.
assim que ir, só o vento ocupará o espaço
antes gasto comigo
não precisarei mais de espaços próprios,
ocuparei a todos clandestinamente e
sorrateira irei para sempre embora
sem ninguém notar.
só existo no meu tempo sem espaço e
ninguém além de mim sabe
o compasso, por isso me vou...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

sala de esperar

me encontra lá na tua sala de estar
com teus olhos perfeitos, tristes e conturbados
onde eu desejo me afundar eterno
pra você me salvar e ser minha sorte
minha ilha perdida, minha armadilha,
teus olhos fugindo, se escondendo no escuro
na profundeza abissal de teus pensamentos
onde eu me jogo e tento, aflita
me prender nas tuas coisas, tuas histórias
que me contas em detalhes tantos
mas de todos, só vejo teus olhos
portanto, me encontra e me olha
eu vou estar
cantarolando tua chegada
sentada na minha sala de esperar

domingo, 21 de março de 2010

.

eu ando apaixonado por cachorros e
bichas

porque eles sabem que amar é abanar o rabo, lamber e
dar a pata